30 Setembro 2009

Desconcertante

Simplesmente não queria rir. Aquela não era hora, muito menos momento, mas não se conteve. O riso transpassou pelos dentes e fugiu pelos lábios. Ressoou no silêncio do quarto. Ela o olhou desconcertada, porém nem mesmo o olhar reprovador a intimidou. Continuou rindo.


Levantou da cama deixando travesseiros e lençóis pelo caminho. Pouco se importou com o que estava deixando para trás, mesmo que isso envolvesse o restante das peças em que estava vestida.

Trancou-se no banheiro e continuou rindo lá dentro. Ele ficou parado na cama sem entender absolutamente nada.

Não era a primeira vez que isso lhe acontecia. Às vezes era desconcertante. Desastroso. Como na vez em que começou a sorrir no meio da prova do vestibular. Primeiro o riso estancado no peito, depois o riso rápido e por fim a gargalhada. Em seguida veio mais forte, mais intenso e mais barulhento, chamando a atenção dos demais candidatos. Alguns a olharam com um olhar ameaçador.Outros sorriram sem graça. Apreensivos. O fiscal aproximou-se, pediu uma explicação para aquilo tudo, no entanto obteve uma sonora gargalhada. Ele pegou a prova. Não viu nada demais. Ela foi convidada a se retirar. Estava atrapalhando os demais candidatos. Saiu e continuou rindo do lado de fora da sala. Perdeu a vaga na faculdade de odontologia.

A outra vez foi no enterro da avó. Que falta de respeito. Ela se aproximou do caixão para colocar uma rosa e de repente começou a rir. Primeiro o riso estancado no peito, depois o riso rápido e por fim a gargalhada. Nem mesmo os olhares fulminantes dos tios fizeram com que ela parasse de rir. Saiu cambaleando e continuou rindo fora da capela mortuária.

Ela ainda tentou fazer teatro. Comédia. Não deu certo. Bastava subir no palco para cair na risada. Tanto riu que irritou o diretor que a mandou embora e nunca mais aparecer.

Não conseguia explicar essa vontade súbita de rir. Os amigos achavam algo positivo e quando ela ria ... riam também. Acho que talvez dela, não do motivo fosse lá o que fosse.

Agora estava ali trancada no banheiro. Seminua. Rindo sem parar. Do outro lado da parede, deitado na cama, um dos homens mais lindos e cobiçados da cidade. Estupefato. Desconcertado. Com a cara enfiada no travesseiro. Como alguém pode rir tanto só porque ouviu um ‘Eu Te Amo’?



Vai entender ...

24 Setembro 2009

A cena

Tatearam-se no escuro. Estarem ali juntos, nus era algo muito particular, íntimo demais, transparente demais para ser quebrado com as nuances de seus corpos vistos assim; sem drama e encenação.

Ele acariciou seus cabelos, desceu suas mãos pelos seios pequenos e rijos. Contornou seu umbigo no que ele a fez arrepiar e se encolher. Ela tinha cócegas. Soltou um risinho baixinho, um som quase abafado. Aquilo o excitou. Sempre a desejara e estar ali com ela a sós num apartamento vazio era especial.

Ficaram abraçados por um bom tempo. Duas pessoas nuas nem sempre precisavam induzir-se ao sexo, por mais que isso fosse um atrativo bem interessante. Beijaram-se. Abraçaram-se. Olharam-se nos olhos, longos e demorados minutos.

Vai entender a destreza do coração. Leviano, impreciso, bandoleiro como dizia seu avô. Uma terra erma que insiste em querer uma habitante. E quando pregoava de que jamais iria se envolver de novo ele lhe dava um duro golpe ao fazer apaixonar-se novamente. Logo por ela, tão pequena, frágil e ao mesmo tempo de uma força impetuosa. Não poderia ser outra pessoa.

De início ser perdeu em devaneios, em outras bocas, corpos, mãos, em outros lençóis. No fim acabou que alguns impulsos não devem ser tão poucos desconsiderados, devem ser obedecidos.

E numa tarde mandou rosas, um convite, um cartão, uma declaração de amor, uma descrição prévia dos seus sentimentos, não era seu estilo e muito menos uma atitude corriqueira sua. Não era dado ao sentimentalismo, ao romantismo. Recebeu um SMS, uma confirmação de que era correspondido.

Se encontraram. E depois de muito tempo abraçados, iluminados pela fina fresta de luz que transpassava pelas cortinas entreabertas da janela, amaram-se. Eram humanos e sucumbiram aos desígnios do desejo.

...

Fechou o caderno, não antes de marcar a página com a caneta. Aquela que ganhou de uma ex-namoradora. Olhou a rua pela janela, a mesma da descrição. Tomou um banho. Se arrumou e saiu. Um dia seria um escritor famoso.

16 Setembro 2009

Do banheiro, ele grita contrariado.


- Não! Não acredito!



Ela no quarto, enrolada em uma toalha, recém saída do banho dá início ao seu ritual de beleza, hidratantes, cremes para o cabelo, protetor solar, óleo, batom.


- Que foi? – Pergunta tranqüila entre um creme e outro.


- De novo não! - Reclama.


Ouve-se o barulho da porta do banheiro sendo fechada com força. Lá dentro ele sussurra algo. Melhor conversa sozinho.




- Eu só posso ter tacado pedra na cruz! É a única justificativa para estar passando por isso. Só pode! O que foi que eu fiz, Meu Deus!!! Essa mulher vive pra me tirar do sério. Olha Deus, um dia ela ainda me mata do coração, de tanta raiva que me faz passar!



Silêncio.


- Ei! O que está acontecendo?


Ele abre a porta do banheiro com estrondo. Surge no corredor só de cueca. Lindo e com raiva.


- Todo dia é isso? Questiona.


Ela aparece na porta do quarto, de saia e sutiã.


- Do que você está falando? - Diz ajustando a alça da lingerie.


- Eu já estou ficando de saco cheio. Todo dia é a mesma coisa. Todo dia, todo dia. E não adianta falar. Parece que você não aprende!


Ela se assusta com a intempestividade dele.


- Você está bem?


- Não, não estou.


- E o que é então?


Ele a segura pelo braço e a arrasta pelo corredor.


- Ai! Tá me machucando. – Diz tentando se desvencilhar da mão dele.


Ele a empurra para dentro do banheiro.


- Pronto.


Ela tropeça no tapete e por pouco não vai de encontro à parede. Se recompõe. Arruma a saia, passa as mãos nos cabelos. Ensaia um sorriso pra ele, que continua sério e inflexível parado na porta.


- Sim ... o que tem o banheiro?


- Olha ao redor! – Manda ele.


Ela corre os olhos pelo espaço e não encontra nada.


- Tá. Prometo que quando terminar de tomar banho eu vou recolher os cabelos que caíram no ralo.


- Não é isso.


Ela assume uma postura pensativa. Cinco minutos depois ...


- Não vou deixar cabelo no sabonete. Mas Amor, não tenho culpa. Não tem como segurar os fios que se desprendem da minha linda cabeleira.


- Não é isso.


Silêncio novamente.


Ela tenta adivinhar o que o chateia.


Desiste.


- E o que é então? Fala logo!


- Maria Heloísa Pinheiro custa não apertar o tubo do creme dental no meio! Sua assassina de tubo de pasta!

15 Setembro 2009

Sobre ... coisa nenhuma

Dedique-se a fazer um pouco de nada.


A vida anda tão corrida que as pessoas perderam o prazer de ficar um instante displicentes de compromissos.


São muitos os prisioneiros do relógio, escravos do tempo, que seguem o tic-tac veemente. Sem perceber estão se desfazendo de um pouco de vida, de um pouco de si.


As pessoas estão perdendo as pequenas miudezas da vida, detalhes diminutos que fazem toda diferença.
Esqueceram-se da importância de sorrir, de ser gentil, de abraçar, de beijar, de dizer ‘Eu Te Amo’. Tudo no fim se perde no vazio do espaço que cada um trás.


Você só percebe o tamanho das perdas quando elas interferem de maneira avassaladora na vida. Quando vê que além de perder o bom que há você, perdeu também a capacidade de ver o que há de bom nas pessoas.


Não se esqueça, dedique-se a um pouco de nada para fugir do previsível...

11 Setembro 2009

O 'Espanta Cão' da Vila


Integrantes do grupo musical 'Espanta Cão', na abertura da parte religiosa do Sairé 2009.



Foto: Zé Rodrigues

Outras formas de chamar atenção


A imagem abaixo foi tirada de um vídeo de uma campanha publicitária de prevenção à Aids. Segundo a ONG Regenbogen, responsável pela peça, o objetivo do anúncio era, 'sacudir'o público antes da Jornada Mundial contra a Aids, que acontece no dia 1º de dezembro.

Mas o que os ativistas conseguiram foi comprar uma briga feia. O You Tube bloqueou o vídeo do ar, depois de diversas críticas, no entanto, no Facebook a explicação para a suspensão foi porque o material 'atentava contra o regulamento do site'.O clipe de 30 segundos mostra um casal tendo relações sexuais em um quarto à meia luz, imitando o estilo de um filme pornô light.

No último plano, revela-se que o homem tem os traços de Adolf Hitler. Ele olha fixamente para a câmera, e aparece a mensagem: "A Aids é uma assassina em massa. Proteja-se".

De acordo com o diretor de criação da campanha, Dirl Silz a escolha do tirano não foi por acaso.
'Nos questionamos que rosto poderíamos dar ao vírus, e certamente ele não podia ser bonito'.

E você o que acha?
 
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