11.12.15

Encontro



- Leva a de morango.

Ela sorriu sem jeito. Estava à frente do expositor, percorrendo com o indicador no ar os pacotes de camisinhas.

Virou um tanto desconcertada para ver o dono da voz. Embora ela fosse uma mulher resolvida, dona do seu corpo e da sua vontade, certos momentos são um tanto complicados de se vivenciar, principalmente aquele que envolve a compra de uma camisinha, ainda mais em uma farmácia onde uma mãe tentava controlar o filho pequeno próximo a seção de perfumes, um casal de idosos comprava os remédios do mês e um dos atendentes parecia entediado olhando a tela do telefone.

- De morango. - disse o sujeito alto, de cabelos castanhos na altura do ombro, de intensos olhos negros e barba por fazer. – Vocês mulheres não adoram morango? Então? Essa pode ser uma boa opção.

Sabe aquele momento em que você quer que um buraco se abra e você consequentemente seja transportada para outra galáxia? Essa era vontade dela naquele instante. Pegou o pacote e se direcionou pra onde mesmo? Ah, para a seção dos shampoos. Ainda viu ele sorrir, diga-se de passagem um p*t@ de um sorriso. E meu Deus! Era um daqueles sorrisos de matar! E para completar o homem além de uma voz encantadora, era charmoso, ainda mais vestido daquela forma totalmente despojada.

Tentou ler um rótulo de algum produto que prometia cabelos sedosos e desembaraçados no verão e no fundo não entendeu nada que estava escrito ali, não por culpa do designer que desenvolveu a embalagem, mas por aquela revoada de borboletas que pairava no seu estômago. Pegou um avulso e mais dois outros um pouco adiante. Passou ao lado dele e para não parecer mal educada, sussurrou um ‘obrigada’. Ele apenas sorriu e acenou com a cabeça.

No caixa sentiu que a fitavam, mas ela tentou pensar nas tantas outras coisas chatas que teria que fazer naquele dia na tentativa absurda de manter a calma. Claro, que você sabe que o destino pode ser algo irônico e engraçado e ela ao sair da fila do caixa ainda tentando guardar o troco na bolsa e segurar a sacola de produtos, deu de frente com uma parede de músculos, muito perfumada (homens perfumados tem todo o meu respeito, já sabem ser irresistíveis daí). Preciso dizer que ela quis desmaiar e sair correndo? Pois é lá estava ela ‘tropeçando’ com o sujeito de novo. Ele segurou-a pelos seus antebraços. E a sensação que percorreu o corpo dela, não dá para descrever agora.

- Você é sempre desligada? – perguntou o sujeito.

Ela forçou aquela expressão natural, mas não dava. Ela esperava entrar numa farmácia comprar discretamente uma camisinha, sair dali tão ‘na sua’ quanto entrou, porém as coisas saíram tudo ao contrário e do controle. Ela parou no expositor com camisinhas, apareceu um cara do tipo protagonista de livro-de-romance-erótico, ainda sugeriu qual o sabor comprar, deu bola para ela, que ficou totalmente desconcertada porque afinal qual a possibilidade daquilo acontecer em plena uma quarta-feira terrível? E quando ela já se achava ‘conformada’ que era muita coincidência para uma hora só, quando já avistava a porta para a liberdade eis que ela dá de cara no peito do moço. É sério tudo isso?

E de todas as coisas e desculpas que ela poderia falar naquele momento, a nossa cara amiga solta um ‘você é um psicopata?’.

É claro que ele lançou um olhar surpreso. E ela fechou os olhos tamanha a besteira que tinha acabado de dizer.

- Desculpa. Foi mal. Eu vou prestar mais atenção.

- Não. Não sou nenhum psicopata. Só não sou imune a uma bela mulher.

- Então é safado?

Senhor! Parem essa guria, como alguém podia fazer a junção das palavras mais equivocadas para um momento daqueles!

Ela passou a mão no rosto. O que estava fazendo?

- Moço, desculpa. Você é meio desconcertante.

- Tudo bem. Além de desligada, já vi que é direta.

- Se não for pedir muito o casal pode sair da fila, eu preciso pagar minhas compras. – pediu a mãe do garotinho da seção de perfumes.

Ela ajustou as sacolas, saiu do caminho e seguiu para a rua. Mas claro que nem tudo ia acabar assim? Alguns encontros são premeditados para serem os mais desastrosos possíveis. E agora vem aquele momento que eu conto que a sacola rasgou, os shampoos caíram no chão, junto com os pacotes de camisinha e as barras de chocolate branco que ela comprou no caixa e adivinha? Quem foi que a socorreu? O sujeito da farmácia!

E lá foi ele juntar todos os produtos no chão. Se encontraram na mesma farmácia mais uma outra vez dias depois quando ela foi comprar os medicamentos para dor na perna engessada, eu já falei o quanto ela era desastrada? Ainda bem que só torceu o pé, mas não preciso dizer que ele quis cuidar dela, preciso?

Trocaram telefones, foram ao cinema, tomaram sorvete num terceiro encontro. E bom, eu só posso dizer que a minha amiga teve sorte! Quantas pessoas você conhece, que encontraram o amor da sua vida numa farmácia?

 
Foto: Internet

15.4.15

Declaração de Amor Incondicional (ou para Lala)



Filha



Hoje é um daqueles dias que dá vontade de jogar tudo para o ar e sair vagando por aí sem rumo. Mas, sabe em outros tempos eu teria tomado essa atitude intempestiva sem olhar para trás, porém agora eu tenho você. Acho que já te disse isso, se não falei ainda, saiba que você é o sentido para seguir sempre adiante. Você é a minha força, mesmo sendo bem menor do que eu. Você marcou um começo e anos depois um ‘re-começo’ da minha vida.

Não importa o quanto você trabalhe, o quanto seja bela, quantos amigos tenha, quantas roupas e livros legais você possua, chega uma hora que nada disso parece bastar. Você preencheu um vazio que vinha se alastrando dentro de mim e ficando cada vez maior. Se antes havia o nada, ele foi tomado por sentimentos que nem eu imaginava existir quando eu vi você.

Eu sei que sou bem imperfeita, que às vezes não pareço a melhor mãe do mundo, que sou falha, um tanto desligada e em algumas situações até fria, mas entenda que isso não significa que eu não gosto ou estou contrariada com você. És a parte mais maravilhosa de mim e te ver assim tão parecida comigo, com meus traços e temperamentos, eu te confesso que assusta.

Por você eu me tornei uma mulher independente e destemida. Eu perdi o medo de baratas, aranhas e centopeias. Eu descobri que carinho, beijos, abraços e cosquinhas são remédios pra todo tipo de dor ou problema. Aprendi que o melhor lugar do mundo pra você dormir é nos meus braços ou de conchinha comigo. Que de todas as coisas que possam me fazer sorrir nesse mundo suas peripécias, suas descobertas sempre estarão em primeiro lugar; saiba que as minhas gargalhadas, aquelas de chorar e ficar sem fôlego acontecem sempre com você.

Eu adoro você gostar das mesmas músicas que eu, principalmente Legião Urbana. Adoro ver você me acompanhar nas minhas dancinhas malucas, um tanto destrambelhadas no meio da casa ( e mais ainda te ver sorrir muito com uma coisa tão simples). Adoro saber que se comer pipoca, batata-frita ou pizza (mesmo isso não sendo muito saudável) você come junto e ainda pede mais maionese para acompanhar. Adoro quando você assiste filme comigo e esconde a cara no meu peito quando não quer ver uma cena que não gosta, tipo quando a Bela Adormecida vai furar o dedo na agulha de fiar. Adoro quando você se enche de orgulho, mesmo não sabendo o que isso e diz ‘É a minha mãe’, você acaba comigo moleca! Derrete meu coração e faz que eu fique tirando ciscos dos meus olhos. Adoro ver suas imitações, seja da professora da escola ou até mesmo minha te dando bronca.

Eu sei que às vezes reclamo da bagunça do quarto, de você não querer feijão, de viver pulando e caindo, mas te conto um segredo: eu era assim. Eu não comia verdura e só fui fazer isso depois de grande e de muito puxão de orelha. Quase na sua idade eu pulava de cima da geladeira porque eu queria ser a Sheerra (um dia eu te mostro quem era ela na internet). Sobre cair e levantar, nossa eu tinha um imã pra isso, na verdade eu só fui parar de viver tropeçando quando fiquei grávida de você porque eu morria de medo de cair sobre a minha barriga (você tava lá dentro ainda).

E filha eu posso lidar muito bem com as palavras, mas pequena falar de você ,bom... eu só posso definir como um misto de sentimentos meio complexos e grandiosos de descrever. É isso! E ah!!! Eu te amo de um tantão maior que o universo!!!!


P.S: Eu não esqueci da sua camisa do Capitão América.

14.4.15

As letras, o moço e o prazer



Moço,

Desculpe se agora não estou aconchegada nos teus braços é que te olhando assim, um tanto suado e com essa feição relaxada, a inspiração chegou de repente. Algumas vezes ela surge do nada e vai se tornando tão intensa que é quase impossível domá-la. Estou agora diante do seu notebook, e espero que não se chateie por ter aberto um arquivo no Word. Lá fora o sol se despede no horizonte e vejo essa cena através da cortina entreaberta do apartamento. Sentada aqui, seminua, somente com um lençol a cobrir meu ventre, diria que sou uma imagem digna de uma crônica, mas a questão neste momento é você e não eu.

Sei que não faz nem uma hora que nosso último ato terminou, porém algo começa a revolver dentro de mim, na parte do meu eu que rapidamente se aquece a qualquer contato seu. Parece loucura eu sei, só que você despertou um dragão insaciável que morava na pele do cordeiro. Ao observar teus cabelos negros desgrenhados, eu revejo as cenas de minutos atrás, quando enveredei meus dedos por eles, num ímpeto louco enquanto cavalgava sobre você. Nem parei diante do espelho, mas sei que muito provavelmente tua boca alucinada deixou marcas sobre mim.

A vontade agora é de deixar as palavras de lado e percorrer com a língua seu corpo, descer a partir da tua nuca, o meio da tua costa e te virar no momento exato em que chegar aos teus quadris. Subir, roçar os meus lábios nos teus, deslizar pelo seu peito até a parte que me interessa e me completa, como uma peça num quebra-cabeças. Muito provavelmente você despertaria com aquele sorriso entreaberto, um tanto safado e duvido que resistisse ao convite para o nosso terceiro round. Agora não tenho como não dar aquele riso baixo, por estar te admirando com pensamentos tão lascivos.

Em pensar que quando nos conhecemos naquela festa quase ao molde da música do Legião Urbana, (estranha e com gente esquisita) muito provavelmente não teríamos imaginado vivenciar tantas loucuras assim. Quando você se aproximou próximo ao balcão, com aquela pergunta furada ‘se a cerveja estava gelada’, mesmo que ela não estivesse, certamente a que eu trazia na mão momentaneamente teria congelado, tamanho o nervoso que fiquei ao me deparar com você. Eu tenho uma queda por sorrisos e você, bom, você tem um daqueles que arrebatam e me desconcertam. Na verdade nem sei como saiu aquele ‘prove você’ quando te ofereci a minha garrafa. Você tomou um gole, ensaiou uma partida, deu meia volta e parou no mesmo lugar e ficou claro que tudo até ali havia sido ensaiado. Mas, gostei da abordagem, foi bem melhor do que ‘gata você está sozinha?’. Você falou da música e ficou evidente que estávamos perdidos ali numa festa cheias de Barbies e amantes de Whey Protein. Da sala para o jardim, as borboletas no meu estômago acho que morreram sufocadas pela cevada. Falamos do que mesmo? Não consigo mais me recordar agora, acho que porque preferi selecionar na memória apenas aquela parte em que você me empurrou contra o carro e me beijou. E o que dizer dos vidros embaçados e do ímpeto louco no banco de trás? Garanto que bem mais animado que a dança no interior da casa.

Não sei qual de nós dois é mais impulsivo, se eu ou você. Acho que estamos num empate, já que da outra vez a animação foi tamanha que aconteceu ali mesmo, no estacionamento do seu trabalho, sorte que a câmera da segurança não pegava o ponto em que estávamos. Mas não somos somente sexo, quando cansados claro, conseguimos falar sobre os filmes que estão em cartaz, aquele livro recente, sobre as nossas divergências musicais, afinal eu prefiro Arctic Monkeys e você Diogo Nogueira. Também conseguimos sair para jantar, se bem que entre o formal, ainda preferimos a pizza família e o cachorro quente lá da esquina. É meio estranho isso, não somos um casal e estamos bem distante de ser. Somos antagônicos, desconhecidos e cada um tem a sua Caixa de Pandora. Há uma sintonia, que se revela tão bem e nem precisamos dessa junção que formam dois. Esse nosso desapego um com outro, essa nossa independência é o que está nos fazendo bem até aqui. Não há essa cobrança de que os lençóis estejam sempre ocupados no dia seguinte.
E moço, não sou de fazer planos, prefiro o imprevisível, o inesperado, mas o que acha da nossa próxima transa ser dentro de um elevador ou você prefere na praia? Não precisamos seguir um padrão, só precisamos ser feliz e autênticos num cotidiano às vezes tão sem graça. Talvez também, pensando bem... eu te faça um striptease. Sim, essa seria uma ótima oportunidade para tirar aquela lingerie vermelha de renda do armário. Você prefere West Coast da Lana Del Rey ou Love And Peace or Else do U2, para acompanhar o embalo dos meus quadris? E não, não vou te prender com algemas o outras coisas na cama, acho que nossos braços, abraços e entrelaçar de pernas cai bem melhor.