10.4.15

Nós



Ela me encarou com aqueles grandes olhos marrons e foi nesse instante que percebi que ela era a tempestade na minha calmaria. Enquanto ela fitava o teto, perdida nos seus pensamentos ou ainda nos reflexos do seu próprio prazer, eu tentava descobrir qual de nós dois era o vencedor daquela prazerosa luta entre corpos. E embora, ela já não fosse uma menina, eu a tinha às vezes tão ingênua, tão sonhadora com os passos imprevisíveis de um futuro. Ela se entregava de corpo e alma, e mesmo que isso pareça a junção de duas palavras que se encaixam somente para descrever um momento, ela estava livre. Comigo, se permitia ser ela mesmo, sem suas atuações, sem seus gestos ensaiados, sem suas convicções desastrosas.

E tão inesperadamente como tê-la assim, nua, ao meu lado, eram as circunstâncias do destino que numa quinta-feira às 10 da manhã, num daqueles dias em que o céu se fecha do nada e a chuva cai de repente, ela me aparecer a procura de outro alguém tão somente para lhe devolver um livro. Nunca me vi tão satisfeito em ver um livro ser devolvido, mesmo este não sendo meu. Eu era um leitor na insônia, mas quando me deparei com ela parada a porta, prestes a encarar a ventania lá fora, eu poderia ser o mais recente escritor no mercado somente para ter um motivo que me conectasse a ela. Eu era o personagem destemido e ousado e que no fim conseguiu um sorriso da moça bonita e uma boa conversa enquanto os pingos não abrandavam.

Ela se virou de lado e voltou a me encarar, como se com aquele olhar penetrante fosse capaz de vasculhar toda a imensidão da minha alma. Eu sabia o que ela procurava, ela queria a troca, mas eu preferia guardar meus sentimentos aqui comigo. Eu vinha de outros verões e os meus, perto dos dela, algumas vezes não tinham terminado bem. Ela queria se aventurar pelo mundo, viver o seu desapego, a independência.

Éramos incompletos.



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