14.4.15

As letras, o moço e o prazer



Moço,

Desculpe se agora não estou aconchegada nos teus braços é que te olhando assim, um tanto suado e com essa feição relaxada, a inspiração chegou de repente. Algumas vezes ela surge do nada e vai se tornando tão intensa que é quase impossível domá-la. Estou agora diante do seu notebook, e espero que não se chateie por ter aberto um arquivo no Word. Lá fora o sol se despede no horizonte e vejo essa cena através da cortina entreaberta do apartamento. Sentada aqui, seminua, somente com um lençol a cobrir meu ventre, diria que sou uma imagem digna de uma crônica, mas a questão neste momento é você e não eu.

Sei que não faz nem uma hora que nosso último ato terminou, porém algo começa a revolver dentro de mim, na parte do meu eu que rapidamente se aquece a qualquer contato seu. Parece loucura eu sei, só que você despertou um dragão insaciável que morava na pele do cordeiro. Ao observar teus cabelos negros desgrenhados, eu revejo as cenas de minutos atrás, quando enveredei meus dedos por eles, num ímpeto louco enquanto cavalgava sobre você. Nem parei diante do espelho, mas sei que muito provavelmente tua boca alucinada deixou marcas sobre mim.

A vontade agora é de deixar as palavras de lado e percorrer com a língua seu corpo, descer a partir da tua nuca, o meio da tua costa e te virar no momento exato em que chegar aos teus quadris. Subir, roçar os meus lábios nos teus, deslizar pelo seu peito até a parte que me interessa e me completa, como uma peça num quebra-cabeças. Muito provavelmente você despertaria com aquele sorriso entreaberto, um tanto safado e duvido que resistisse ao convite para o nosso terceiro round. Agora não tenho como não dar aquele riso baixo, por estar te admirando com pensamentos tão lascivos.

Em pensar que quando nos conhecemos naquela festa quase ao molde da música do Legião Urbana, (estranha e com gente esquisita) muito provavelmente não teríamos imaginado vivenciar tantas loucuras assim. Quando você se aproximou próximo ao balcão, com aquela pergunta furada ‘se a cerveja estava gelada’, mesmo que ela não estivesse, certamente a que eu trazia na mão momentaneamente teria congelado, tamanho o nervoso que fiquei ao me deparar com você. Eu tenho uma queda por sorrisos e você, bom, você tem um daqueles que arrebatam e me desconcertam. Na verdade nem sei como saiu aquele ‘prove você’ quando te ofereci a minha garrafa. Você tomou um gole, ensaiou uma partida, deu meia volta e parou no mesmo lugar e ficou claro que tudo até ali havia sido ensaiado. Mas, gostei da abordagem, foi bem melhor do que ‘gata você está sozinha?’. Você falou da música e ficou evidente que estávamos perdidos ali numa festa cheias de Barbies e amantes de Whey Protein. Da sala para o jardim, as borboletas no meu estômago acho que morreram sufocadas pela cevada. Falamos do que mesmo? Não consigo mais me recordar agora, acho que porque preferi selecionar na memória apenas aquela parte em que você me empurrou contra o carro e me beijou. E o que dizer dos vidros embaçados e do ímpeto louco no banco de trás? Garanto que bem mais animado que a dança no interior da casa.

Não sei qual de nós dois é mais impulsivo, se eu ou você. Acho que estamos num empate, já que da outra vez a animação foi tamanha que aconteceu ali mesmo, no estacionamento do seu trabalho, sorte que a câmera da segurança não pegava o ponto em que estávamos. Mas não somos somente sexo, quando cansados claro, conseguimos falar sobre os filmes que estão em cartaz, aquele livro recente, sobre as nossas divergências musicais, afinal eu prefiro Arctic Monkeys e você Diogo Nogueira. Também conseguimos sair para jantar, se bem que entre o formal, ainda preferimos a pizza família e o cachorro quente lá da esquina. É meio estranho isso, não somos um casal e estamos bem distante de ser. Somos antagônicos, desconhecidos e cada um tem a sua Caixa de Pandora. Há uma sintonia, que se revela tão bem e nem precisamos dessa junção que formam dois. Esse nosso desapego um com outro, essa nossa independência é o que está nos fazendo bem até aqui. Não há essa cobrança de que os lençóis estejam sempre ocupados no dia seguinte.
E moço, não sou de fazer planos, prefiro o imprevisível, o inesperado, mas o que acha da nossa próxima transa ser dentro de um elevador ou você prefere na praia? Não precisamos seguir um padrão, só precisamos ser feliz e autênticos num cotidiano às vezes tão sem graça. Talvez também, pensando bem... eu te faça um striptease. Sim, essa seria uma ótima oportunidade para tirar aquela lingerie vermelha de renda do armário. Você prefere West Coast da Lana Del Rey ou Love And Peace or Else do U2, para acompanhar o embalo dos meus quadris? E não, não vou te prender com algemas o outras coisas na cama, acho que nossos braços, abraços e entrelaçar de pernas cai bem melhor.

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