7.11.14

As coisas que aprendi com ela

Novembros passam rápido. De repente você mal consegue se movimentar pela casa por conta de um barrigão enorme (grande mesmo, diga-se de passagem) e em outro momento está ali, tentando explicar para uma garotinha com as bochechas mais fofas do mundo que ela não pode comer somente chocolate. Depois de um recesso sobre textos pessoais eu me vi diante do desafio de retomar a escrita. Vivo um período especial, minha filha Lauren, ou se preferir a Lala, a Lalinha, a Rebecca, a Becca ou a Bebba, como diz o tio Michel, completa três anos nos próximos dias.

Meu filhote de passarinho é agora um grilinho falante e bastante serelepe. Está na fase das ‘centenas de perguntas’, do ‘não quero’, e do ‘é meu!’. Vive correndo e caindo também. Quer por vezes ser independente, querendo vestir a sua roupa sozinha ou na hora de arrumar a mochila pra escola, mas no fim, depois de muita pirraça e traquinagem durante o dia, a pequena garotinha vai dormir aninhada do meu lado, mas não sem antes de me dar um beijo no rosto no escuro do quarto.

A gravidez da Lala, descoberta aos três meses, foi uma das coisas improváveis que aconteceu comigo. Eu era uma sobrevivente depois de um procedimento cirúrgico um tanto complexo. Sabe aquelas coisas que você se conforma que acontecerá com os outros, mas não com você? Ser mãe era uma. Tanto que estava convicta que a cegonha ia passar distante da minha porta. Lembro de certa ocasião em 2010, com a boca cheia de pontos e o rosto inchado, de uma conversa que tive com a mamãe enquanto ela cuidava de mim num quarto de hospital. Perguntei se ela tinha planos de ser avó. Ela me olhou meio incrédula e perguntou ‘por quê’. Respondi que diante de tanta coisa que vinha me acontecendo, num cenário em que tinha passado por duas cirurgias distintas em menos de dois anos, se eu precisa mesmo seguir a máxima de que toda mulher precisa ser mãe. Finalizei dizendo que não queria correr o risco de ter uma cópia minha, com uma saúde meio frágil. Um ano depois dessa ocasião, seis meses após uma terceira cirurgia eu descobri que estava grávida, quando acreditava que meus enjôos eram na verdade algum desconforto no estômago, ou na minha vã inocência, gastrite.

Lição um: A vida é uma caixinha de surpresas. Mesmo que as probabilidades te levem para um caminho distante das suas expectativas, acredite sempre existe a possibilidade de no meio da estrada aparecer um atalho ou um balão para te levar a alçar novos vôos.  Logo aprendi que nunca se deve acreditar que os dias  sempre serão ‘mais do mesmo’.

Já grávida, com mil planos futuros, eu levei uma rasteira. Por conta de alguns comportamentos impulsivos meus e por achar que tinha sempre razão, que eu estava com sorte acabei entrando numa grave crise financeira.

Lição dois: Nunca duvide da sua capacidade de ser forte. Às vezes são nos momentos mais complicados, que você descobre o seu potencial. Fiquei toda a minha gestação sem trabalho. Ninguém queria contratar uma grávida. Pra alguém que era alucinada e trabalhava feito uma louca, foi um ‘baque’ e tanto. Eu chorei. E não foi pouco. Mas, já dizia Absolem, a lagarta na história de Alice no País das Maravilhas “ninguém jamais conquistou alguma coisa com lágrimas”. Então, tentei empreender e comecei a fazer pequenos serviços, freelas. Tive que provar que eu não era apenas uma jornalista prestes a ter um bebê, que para além daquela barriga enorme eu continuava sendo a mesma profissional, só que diante das circunstâncias mais madura. Não parou por aí e foi bom não esperar que tudo ficasse monótono. Depois de planejar um parto normal, de arrumar um mês antes todas as coisas da Becca, tive que mudar o passo-a-passo para a maternidade, após descobrir uma infecção urinária e ver minha pressão arterial oscilar, logo foi descartado o parto normal e diante do fato do meu obstetra estar viajando (pra completar), minha cesárea aconteceu numa manhã de sexta-feira. Depois de meses de atribulações, esqueci tudo quando vi as bochechas rosadas e aqueles olhinhos escuros.

Uma das minhas músicas favoritas é Have You Ever Seen The Rain?  do Creedence Clearwater Revival que num resumo diz que depois da tempestade vem um lindo dia de sol. Estaria mentindo se dissesse que ao mesmo tempo em que estava feliz, também não estava com medo. Eu ficava observando a Rebecca dormir e me perguntando o que iria ensinar pra ela, que tipo de mãe seria e que história ela teria até aquele momento da minha vida para contar no futuro sobre mim. E assim logo que me mudei para a segunda casa, com uma garotinha de quase três meses recebi uma ligação de uma pessoa improvável que me indicou para um serviço. O que era pra ser apenas 4 semanas, viraram 10 meses e um dos meus melhores empregos.Não foi somente um recomeço, eu tive a oportunidade de conciliar a minha nova fase de mãe com um trabalho que adorava fazer.

Lição três: Vá além dos seus limites. Acredite em si mesmo. Eu sei que isso nos momentos adversos ou quando nossa autoestima não está legal é meio complicado, no entanto, siga em frente. Saiba fazer de tudo um pouco. Isso não é um conselho é uma questão de sobrevivência! Digo isso porque eu várias vezes tive vontade de desistir. Estava feliz com o trabalho, mas no paralelo fui mal compreendida por ficar um tempo fora de casa com uma criança tão pequena. Fui criticada e em várias ocasiões fiquei noites olhando pro teto esperando encontrar na rachadura na parede ou nas tiras do forro alguma solução. Aprendi a improvisar, a ser destemida e na linha tênue as coisas prosseguiram. Passei por uma nova cirurgia e a máxima de que o que ‘não mata, fortalece’ virou meu lema e sai mais forte. Logo depois vieram os primeiros passinhos, o ‘mamãe’ e embora muitas coisas tenham endurecido um pouco meu coração, a Lauren era o que amolecia ele, e eu chorei quando passei por isso tudo, mas de felicidade.

Sempre quis que a Becca não virasse imagem e semelhança minha, sou uma pessoa de temperamento meio forte e muito embora tenha minhas qualidades, preferi não ser modelo. Fiz das minhas metas ter histórias boas para que ela contasse sobre mim e perto dos dois anos da minha pequena, eu decidi tomar uma decisão.

Lição quatro: Sinta-se bem consigo mesmo. Antes de querer agradar ao mundo, você precisa estar feliz com a sua própria pessoa.Vejo dia após dia ‘personagens’ que estão atuando em histórias que não são as suas, criando enredos que não são suas vidas. Não importa quanto tempo você vá testar fórmulas para descobrir o que te faz feliz, só não desista das experiências.

Já dizia o poeta “que seja eterno enquanto dure”, depois de um tempo, decidi que era hora de seguir sozinha. Relacionamentos não são feitos somente de amores e conflitos, alguns são traçados para serem para sempre, outros vão se perdendo nos pormenores do dia-a-dia. Dos momentos e aprendizados agradeço. Vida que segue. E muito embora eu não fale sobre isso e nem tenha que falar, sintetizo que algumas diferenças de personalidade entre as pessoas não se tornam mínimas, às vezes se tornam mais acentuadas com o tempo. Por isso que não acredito que os opostos se atraem. Durou o tempo que era pra durar.

Lição cinco: Sorria. Esteja num momento bom ou ruim sorria do mesmo jeito. O sorriso é a janela da alma. Quando tentava encontrar esta última lição adivinha quem me deu a resposta? A própria Lauren. Na parada do almoço, no nosso primeiro encontro do dia, afinal logo cedo ela estava dormindo, a primeira coisa que vi quando cheguei em casa foi uma garotinha que abriu a porta com o maior sorriso no rosto e cara de felicidade ao me ver. Esqueci a fome e o cansaço. Ainda dúvida do poder de um sorriso? É um dos remédios mais eficientes para as situações de raiva ou deprê, digo isso porque a própria Becca já vive me dizendo “ri mamãe”.
De tudo que escrevi até aqui, todas essas experiências eu só tive por causa da Lalinha. Foi por causa dela, somente dela, que eu persisti, que levantei a cabeça, que chorei, que sorri, que voltei a ser uma criança grande. E é por causa dela que todo dia eu faço minha parte para que no futuro ela tenha uma história minha para contar.


Lalinha

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