28.11.13

Menina má

Estava lá. Sentada na escada. Perdida em alguma novidade na tela do celular. Juro que nunca imaginei que naquela tarde chuvosa, às três da tarde fosse me deparar com ela ali, parada, esperando por mim. Nem mesmo depois de ter recebido um email curto com um ‘Oi. Como você está?’ duas semanas antes, eu poderia prever que quase oito meses do adeus dela, a mesma apareceria inesperadamente a minha porta.






Do outro lado da rua, fiquei vendo os carros passar, talvez cinco ou dez minutos até que tivesse coragem de atravessar o asfalto molhado e ficar frente a frente com ela. Podia ter passado algum tempo, mas ainda doía. Esses sumiços inesperados, típicos do seu jeito de ser, eram avassaladores e suficientes para abalar todos os meus planos em míseros segundos. Ela mexia comigo. 

Mesmo que passassem cem anos eu sabia que toda a minha raiva se dissiparia num sorriso dela e logo eu seria um frouxo, e não um louco que quebrou todos os porta-retratos que ela deixou para trás alguns meses antes, ocasião esta que todas as garrafas do bar do corredor, até mesmo as guardadas para as ocasiões especiais, ficaram vazias.

Eu a odiava e a amava. Essa dubiedade fez com que por vezes questionasse sobre a minha sensatez e se não estava ficando louco. Sinceramente, torcia que nunca mais tivesse notícia dela, que tivesse casado, que estivesse grávida do primeiro filho, mas que enfim tivesse encontrado um motivo para nunca mais aparecer na minha vida. Não encontrou. Agora tinha que traçar aqueles poucos passos, pois o seu olhar já havia encontrado o meu e aquele sorriso, aquele que balançava as minhas estruturas, já estava estampado no seu rosto.

Ela vestia uma jaqueta azul clara, uma camiseta branca, uma calça jeans desbotada e as botas marrons. Ela sabia fugir do padrão convencional, e estava linda naquele estilo, mesmo que fosse incoerente para uma cidade que não chovia todos os dias.

 Sempre adorei sua autenticidade. Conseguia ser extremamente sedutora em qualquer coisa que vestisse fosse um vestido longo negro que deixasse suas costas nuas ou em uma das minhas camisas. Antes que dirige-se qualquer palavra, subiu as escadas sem olhar para trás. Abusada. Como ela tinha a capacidade de chegar sem pedir licença escancarando todas as portas da minha vida?

 Em frente a fechadura do apartamento, enquanto tentava achar a chave certa, ela beijou meu rosto. Confesso que tive vontade de empurrá-la conta a parede, sufocá-la com meus beijos e se mais a frente não morasse uma família no 302, teria despido ela no meio do corredor e saciado o meu prazer ali mesmo.

Quando a vi no interior do apartamento, já tinha jogado a jaqueta sobre o sofá, desamarrado o fio das botas e cinco minutos depois caminhava totalmente à vontade, somente de blusa e calcinha de renda em direção à geladeira, tudo isso enquanto eu observava parado da porta. Eu quis mandá-la embora, mas não tive coragem. Precisava saber por que ela estava ali. E antes que formula-se alguma frase completa, ela se aproximou e me deu um beijo alucinante que meu único ímpeto, depois de semanas sem vê-la, foi joga-la sobre o sofá.

...



Enquanto ela dorme agora, completamente nua (entre as almofadas que ela mesma escolheu quando estávamos juntos), eu apenas a observo e fico tentando compreender o temperamento de algumas mulheres. Mulheres sem coração, como ela. Mulheres que chegam, tiram sua roupa, fazem você perder a razão e o juízo, por uma transa no final de uma tarde chuvosa. Por mais que eu tente odiá-la eu sempre vou ceder ao seu corpo sensual. Ela sabe do domínio dele sobre mim. Eu sei que daqui algumas horas ela vai arrumar as coisas e partir sem dizer muito. Eu vou beber até cair, talvez ali... naquele mesmo sofá. Vou sofrer, porque o cheiro do maldito perfume dela vai ficar na sala. Vou ficar imaginando quando ela aparecerá de novo. No fim das contas eu vou ficar me perguntando porque não consigo não me render a essa menina má.

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