23.12.10

Derradeiro


Pulou. Não sei ao certo qual era a altura daquela ponte, mas se atirou lá de cima. Foi despencando. Caindo. Súbito. Rápido. Instável. Deixou para trás a mulher. A filha pequena. O cachorro que ganhou daquela tia que morava na Argentina. O carro importado comprando em 42 vezes. A casa da praia onde adorava ir ao final de semana. O cavalo alazão que ganhou numa aposta, mas que apesar de ter muita vontade nunca aprendeu a andar. As viagens, Paris, Amsterdã, Chile, Salvador. Os livros raros. A coleção do Queen. As motos em miniatura na estante. As gravatas importadas. O celular e o notebook de última geração. O escritório mobiliado com móveis de lei, que no fim deram um ar mais sutil ao seu ambiente de trabalho.

Deixou para trás, amores. Aquela moça de cabelos castanhos que vez o outra mantinha contato (alguns relacionamentos resistem às circunstâncias e até mesmo um casamento). Para ele era um segredo gostoso. Deixou os amigos, Vitor, Gamão, Hector, José. O time de futebol que jogava as quartas-feiras no campinho do condomínio. Deixou poucas inimizades (ele era um cara legal e porque as pessoas se chateariam com ele?). Deixou duas irmãs, ah! Já ia esquecendo ... eram três porque ainda tinha aquela moça filha do pai num outro casamento. 

Deixou primos, primas, sobrinhos, sobrinhas, cunhados. Deixou clientes. Um ex-sócio.
Deixou para trás os prêmios que recebeu. As festas que foi. Aquela gente chata do meio profissional, mas que ele era gentil em sorrir. Os vizinhos legais, que sempre foram prestativos (pessoas assim são raras). Deixou os cactos na varanda. Eram práticos e não precisavam molhar todo tempo, por isso que gostava deles. Deixou aquele último projeto incompleto. Droga! não poderia ter feito aquilo!

Pulou. Foi ligeiro. Não como uma pluma ao vento (porque ele era grande e pesado demais). Pulou direto nas águas escuras e fundas daquele rio. Sumiu. Meio minuto depois saiu. Caminhou pelo leito de pedrinhas cinza. As vezes bate uma doideira. Sorte que não caiu sobre as pedras.

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