23.12.10

Barulhos

Amaram-se ao som de Léo Magalhães. Tudo bem que não era o melhor cantor do mundo, mas no auge da paixão, das mãos e braços, dos beijos ardentes a música lá fora no bar da esquina foi à trilha sonora. Bêbados bradavam idiotices, tolices, coisas efêmeras. Conversas sem pé e nem cabeça perdidas no cruzamento das duas vias. Mulheres sorriam escandalosas. Risadas um tanto histéricas, algumas fora do normal.

Um cachorro latia ao longe. Que diabos aquele cão estava vendo para latir feito um louco às 16h00 da tarde? Na casa ao lado a televisão alta, novela,filme, programa de auditório. Um telespectador confuso tentava se decidir entre um canal e outro. Crianças brincavam logo ali, um tal de ‘pega’, ‘não’, ‘corre’,’não deixa’. Uma mãe gritava pelo nome do seu menino. Uma. Duas. Três vezes. Ele não apareceu. Danado, devia estar escondido por aí. Garotos são assim, adoram desesperar suas mães, depois aparecem cínicos, calmos e risonhos como se nada houvesse acontecido.

Entre braços e pernas, tentavam esquecer o mundo lá fora. O carro passando desesperado no asfalto quente. O liquidificador insistente. O ventilador que ansiava por um óleo lubrificante. O bebê chorão da casa da esquina, porque Deus aquela mãe não o fazia parar de chorar? Tentaram não lembrar do cachorro latindo descontroladamente. Do cantor popular tocando naquele rádio velho do bar da esquina. Da mulher gritando pelo filho. Das crianças brincando. Entre tantos barulhos. Pararam. Olharam para o teto e ficaram assim.

Será que não é possível amar em paz?

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