28.9.10

Inconstante

Bastou aquele puxão um pouco mais apertado no braço, um tanto estúpido para que ela o encarasse incisiva com um olhar que penetrava a alma. O impulso foi agredi-lo com todas as suas forças, mas aconteceu tudo ao contrário. Mexeu com ela. Não no ego, algo mais abaixo.


Desprendeu-se súbita e irritada. Ele sorriu. Aquele riso cínico, típico dos que estão ganhando o jogo e a poucos centímetros da conquista. Ela o odiou. Aquilo subiu e como num vulcão ameaçou explodir. Já não era raiva, era desejo. É estranho, mas acontece. Fugiu cheia de charme e indignação. “Ele não!”.


Essas vontades súbitas apareciam de vez em quando. Eram tão inexplicáveis como o fato de querer agredi-lo e beijá-lo. Tudo ao mesmo tempo? Sim. Toda mulher traz um cordeiro e uma loba dentro de si. No caso dela insistia em manter o segundo aprisionado. Desacorrentado era impulsivo e dominador. Um lado que preferia restringir. Não agora.


Parou dois metros a diante. Ele casava com suas fantasias. Com seus fetiches. Com as coisas que não tinha medo agora. Que preferia não temer, apenas agir. Sorriu. Ela também era uma menina má. Lembrou de quantos deixou para trás. Desolados. Sentiu uma ponta de orgulho. Era ela que estava no comando. Nunca eles. Seria sempre assim? Preferia acreditar que não tombaria uma segunda vez. A primeira serviu para aprender aquilo tudo. A ser um pouco mais determinada e cruel.


Ele a agarrou por trás. Ela não ofereceu resistência. Não se debateu. Deixou-se levar nos braços brutos e fortes. Deixou-se levar pelos beijos ardentes. Pelos gestos impulsivos e descontrolados. Deixou-se arranhar pela barba mal feita. Pela agitação, mas não se deixou ir... Não entrou no carro. Não foi para o estacionamento. Não subiu as escadas. Não deitou naquela cama. Não tomou banho com ele. Não lhe acariciou as costas. Não roçou suas pernas nas dele. Não tocou seus lábios de leve na nuca. Não lhe agarrou pelos cabelos. Não suou. Não gritou. Não tombou exausta para o lado. Apenas acordou daquela fantasia parada naquele ponto da calçada quando estancou imaginando ele lá atrás. Seguiu em frente deixando mais um cara confuso pelo caminho.
Paulo César (br.olhares.pt)

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