1.7.10

Retrovisor

Os grandes olhos negros cruzaram-se com as íris castanhas no retrovisor. Nunca tinham se visto.Nunca haviam se olhado. Se analisado. Se insinuado. Hoje ele era o motorista dela. Ordens. Ela compromissos. Ele obrigações. Ruas. Esquinas. Semáforos. Ela desviou a atenção. Avistou a paisagem pela janela. Fingiu não perceber o olhar fumegante. O desejo.  Estranho e bom.De repente o carro ficou pequeno demais. Quente. Desceu um pouco mais o decote da blusa. O que ela estava fazendo? Ignorou a consciência. Ele fitava-a. Ela teve medo. Ele? Ao mesmo tempo adorou aquela situação. Desprendeu-se das explicações.


Mais ruas. Esquinas. Avenidas.


Fingiu procurar algo que não estava na bolsa. Ele voltou a atentar para o asfalto. Teclou alguns números no celular. Sem resposta. Guardou novamente. Ele sorriu. Percebeu o charme, o trejeito. Não havia nada, ninguém. Ela acabou sorrindo também. Vencida. Olhou para a rua. Olhou para ele. Olhou para o chão. Para o teto. Ele sentiu-se um máximo. Esboçou um sorriso malicioso. Havia ganhado o jogo. Ela decifrou os gestos. Avaliou os braços cobertos de pêlos (ela adorava homens peludos). O contorno das pernas na calça jeans desbotada. Os detalhes do rosto. A barba por fazer. As mãos grossas. O pequeno pontinho azul na orelha. Achou um charme o brinquinho azul. A boca carnuda. O sorriso sedutor. Estava numa grande enrascada.


Uma hora entre o deslize e a realidade. Mais ruas. Um diálogo mudo. Aproximou-se. Ficou no espaço entre os dois bancos. Foi ela que o tocou. Avançou a mão esquerda sobre a perna direita dele. Ele se surpreendeu, mas deixou. Afagou. O corpo contraiu. Prazer. Ela sorriu. Ele mordeu os lábios. Puxou-a para a parte da frente do carro. Beijou avidamente. Semáforo fechado. Carros parados. Vidros escuros. Ela sentiu a língua a lhe descobrir os segredos. Percorrer o céu. A mão em outros espaços. Buzinas. Ela sentou no banco ao lado. Contemplou-o. Ele louco. Alucinado.


Ruas.


Fitou as coxas grossas no vestido. Travessa. Nada ingênua.








Nada como o acaso. Cinco minutos. Silêncio. Conflito. Frenesi interior. Sim e não. Será? Mãos. Ela se ergueu. Esticou-se. Mais perto. A língua roçou o pescoço. Abraço. Braços envoltos no corpo. Ela sucumbeiu Deixaouse levar. Perdeu-se. Ao lado pessoas passavam na rua. Só então se deu conta de tudo. Ela parou. Ele freiou. Ela explicou. Ele concordou. Lábios se encontram. Os gestos cessam. Ela olhou pela janela. Ele o trânsito.Ela procurou um espelho. Retocou o batom. Arrumou o cabelo. Charme. Ele a observou pelo canto de olho. Ia ser dele. Ele soube. De repente o destino não é mais o mesmo. Ela temeu. Resistiu. Cedeu ao sentir a mão dele na nuca e a deslizar pelas costas. Olhou o relógio. Ignorou as horas. Entrou no quarto escuro.Acaso. Se deixou levar. Quem ajoelha, paga. Abraçou. Suou. Dedos e corpos se emaranham. Está feito.


Pelo retrovisor encararam-se como se nada tivesse acontecido. É a vida...

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