29.6.10

Sete Anos


De repente as coisas cotidianas invadiram o lar. Entraram pelas portas, pelas janelas, pelas frestas da porta da cozinha, pelos buracos das goteiras no telhado. Estavam ali. Depois de um tempo a toalha esquecida sobre a cama resultava em uma noite no sofá. A organização das peças no roupeiro o suficiente para uma revolta.
Enquanto a observava preparar o jantar tentava encontrar naquela mulher a poucos metros a mesma criatura encantadora de sete anos antes. A bela moça de cabelos e olhos castanhos, de pele macia e sorriso fácil. Suspirou. Tudo aquilo parecia muito distante como numa outra vida. O que percebia no dia-a-dia era que a rotina cada vez mais os deixava diferentes. Mesmo apesar do tempo o relacionamento a dois é um constante aprendizado. Questionou-se se deixará de aprender. Qual seria sua parcela de culpa? Sua falha?
Com o passar dos dias as pequenas coisas tomavam proporções enormes num piscar de olhos. As chegadas e saídas tornaram-se mudas. Sem querer o silêncio acabou se impondo e passou a ser o principal visitante daquela residência. Um inquilino indesejável que teimava em permanecer ali.
Ela chorava trancada no banheiro. Tinha facilidade em proferir palavras duras e frias, mas no fundo era frágil. Somente ele não percebia isso. Às vezes o observava dormir. Contemplava os cabelos negros, os ombros largos, a boca pequena, a barba rala, a respiração cansada e profunda. Alguns homens com a maturidade despertam belezas ocultas que poucas mulheres possuem a capacidade de desfrutar. Ele era um desses e ela sentia que estava perdendo isso, por mero capricho do seu temperamento difícil.
Quando a rotina bate a porta o amor é o primeiro a ameaçar pular pela janela. Mais do que sentimento é preciso ter companheirismo para sobreviver às peculiaridades do dia-a-dia. Quando o silêncio se impõe fecham-se algumas saídas e numa situação de emergência as janelas sempre vem a convir.
Conversaram quando o divórcio despontou como alternativa. Descobriram que o diálogo é a principal ferramenta para construir um relacionamento e aprenderam a começar do zero. Depois de tantos erros, encontraram o elo perdido. O amor renasce a cada dia mesmo quando o sol não desponta no horizonte.

Fotos: José Bernardo  (Olhares.com)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poucas palavras ...