26.5.10

Carta a minha avó


Mojuí, 26 de maio de 2010.

Não fui das netas a mais apegada. Aquela que estava sempre ao lado, mas Vó confesso enquanto escrevo estas linhas que sentirei saudades. Tento me recordar agora dos tantos momentos que vivi ao longo das duas décadas em que convivemos. Difícil... mas parecem remotos. É estranho que recordações agora sejam mesmo somente lembranças.

Prefiro acreditar que ainda te encontrarei sorrindo quando me avistar chegar à beira da estrada e que quando me aproximar ainda perguntará da mamãe e de como vão as coisas na cidade. Aliás, somente agora depois de adulta entendo sua vontade de sempre estar próximo a natureza. E sabe Vó a senhora estava mais do que certa! O mundo anda agitado demais e ter um lugar ermo onde repousar convém aos estressados.
Mesmo sendo mulher não sei se teria a coragem que você teve de pôr tanta gente no mundo. Apesar de terem sido treze nunca que quem te visse diria isso. Se chegar com um corpo semelhante ao seu na sua idade já me darei por alegre e satisfeita.

De todas as coisas que tento imaginar agora para escrever aqui, me recordo da sua preocupação comigo no período em que estive fragilizada fisicamente. Eu precisava de cuidados, mas você mais ainda, mesmo assim você esteve solícita. Fiquei sem jeito, quando te vi sorrir feliz ao perceber que eu estava bem. Até mesmo as pessoas de pedra desmoronam diante de pequenas atitudes.


É bem difícil aceitar que não estará mais lá quando eu aparecer. Juro que agora não queria estar tendo que escrever esta carta de despedida, no entanto como uma malabarista de palavras foi a única forma que encontrei de expressar a consideração que tenho pela senhora. Por falar em palavras, obrigado por me deixar o legado delas. Acredito que se não fosse seu empenho em ensinar a tantos, provavelmente não aprendesse a lidar com elas tão bem, apesar de ter feito jornalismo e não ter me tornado professora. Creio que mesmo com esta discrepância tinhas orgulho de mim, a  neta que nasceu feia como disse a senhora ao papai e se tornou bonita quando cresceu. Discordo desta afirmação, mas tudo bem.

Vó descanse em paz. Deixe que agora seus netos cuidem dos filhos que se esforçaste tanto para pôr no mundo. Daqui pra frente somos nós que os abrandaremos.  Os mais teimosos, os mais bondosos, os justos, os complicados. Vá tranqüila encontrar o velho João, que a julgar pelo tempo deve estar morrendo de saudade. Duas pessoas tão amorosas só podem ter sido determinadas a continuar juntas pela eternidade...

Com carinho da sua  neta.

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