21.1.10

A janela

Acordou sobressaltada quando sentiu a rajada de vento invadir o quarto fechado. Puxou o cobertor e cobriu a cabeça, mas o frio que entrava pela janela era mais forte e cruel. Seu corpo tremeu. Olhou ao redor. A janela. Estava aberta.

Ouviu os barulhos da noite. Algo rastejava. Sentiu aquela sensação gelada na espinha, as borboletas no estômago, os cabelos da nuca se eriçarem. Ela tinha medo do escuro. Estava escuro. Muito escuro. Do lado de fora um sibilo deixava-a mais apavorada. O que seria aquilo? O vento nas árvores? Algum bicho noturno?


Foto: Ronaldo Partha

Tentou ser mais forte que o medo. Tentou ignorá-lo, mas o medo às vezes é um sentimento muito traiçoeiro e insensível que insiste em te perturbar entrando por uma fresta do seu lençol. De onde tirar coragem?

O velho relógio da sala, aquele que mamãe ganhou de herança do estranho primo Bento badalava 4 vezes. Eram 4 da manhã. O som deixava-a ainda mais apavorada. Detestava aquele relógio. Como desejava que tantas vezes ele caísse da parede enquanto anunciava as horas (mas isso nunca aconteceu). Ele parecia pregado na superfície de alvenaria, como se tivesse mesclado a ela. Achava-o amaldiçoado. Se assim dissesse ninguém acreditaria nisso, que um inofensivo objeto na sala lhe provocava temores.

O frio voltou a soprar pelo quarto. Ouviu novamente os barulhos lá fora; no corredor ao lado da janela. Pareciam passos. Passos pequenos. Unhas tocando o chão rústico de cimento. O bicho-papão teria pés de galinha? Ou talvez fosse um rato de unhas afiadas? Sim um rato! No final do corredor tinha um esgoto e talvez a ratazana tivesse entrado por lá, mas e se ele decidisse entrar no seu quarto? Meu Deus um rato na cama! Aí ela teria que gritar desesperada até que alguém aparecesse com uma vassoura para matá-lo. Matá-lo? Não, não. Eles eram sujos, mas bonitinhos ... longe dela é claro.

Escutou o barulho de novo. Dog! Sim. Dog poderia estar correndo atrás do rato no corredor. Como é que não tinha pensando nisso? Mas os passos pareciam maiores, de algo grande e Dog era só um pequinês. Ela se encolheu embaixo do cobertor, senão era o rato, não era o Dog, era o ... Bicho-Papão!

Um súbito pensamento lhe passou pela cabeça... E se o bicho-papão tivesse comido o rato e o Dog? A próxima vítima seria ela então? O impulso de gritar cresceu ainda mais. Sentiu-o subindo pela garganta. Preferiu abandonar as teorias do ‘Se’. Elas a estavam enlouquecendo.

O vento balançou a janela que estava fechada. Ela tomou coragem e se aproximou do interruptor. Enrolou-se na rede que atravessava o quarto escuro. Por pouco não se estabanou no chão. Sentiu-se como uma daquelas personagens de filme de ação, que precisam urgentemente chegar num botão antes que a bomba leve o prédio pelos ares. Um minuto depois de se desvencilhar dos empecilhos pelo caminho chegou ao comutador.

Respirou fundo. Sucesso. Ela tinha conseguido. Ouviu os passos do bicho-papão fracos, com certeza estava correndo com o rabo entre as pernas (Imaginou que ele tinha um rabo). Se ela tinha medo do escuro, ele tinha medo da claridade (Imaginou isso também). Aproximou-se da janela que estava aberta. Devagar. Lentamente. Sem pressa. Olhou para o chão, para o corredor. Para um lado. Para o outro. Não havia nada. Olhou para cima. Quando viu ... viu ... viu ...

... o céu estrelado mais bonito de toda a sua vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poucas palavras ...