11.11.09

Aparências

Dois velhos amigos de escola se reencontram em um bar, num desses finais de tarde da vida. Carlos e Vitor. O primeiro, o careta, o CDF, o esquisito, da sala, o perseguido pelos valentões, mas que cresceu e se transformou em um homem de 1m75, cabelos e olhos pretos, branco, corpo atlético. O segundo conhecido como o gostosão, o popular com as meninas, o ‘cara’, que tinha virado um sujeito de 1m72, cabelos castanhos, lisos, pele clara e olhos verdes, aparência cansada.
- Carlos? – Pergunta o homem de terno cinza.
O cara de camiseta branca, bermuda e sandália, encostado no balcão, vira para ver quem o cumprimenta.
- Sim? (pausa).Você quem é?
- Tá de brincadeira comigo? Fala sério! Não tá lembrado de mim não? Vitor, meu camarada!
- Vitor! Claro, claro. Estou comigo não é mesmo? Como vai?
- Eu vou bem. Você que mudou pra carambas, quase que não te reconheci. Tá bem diferente daquele cara desajeitado dos tempos de escola, que costumávamos sacanear na sala de aula. Tá até bonito. – Diz o homem caindo na risada.
- As coisas mudam. – Afirma Carlos sorrindo. E aí o que ta fazendo da vida? Ainda continua o “terror da mulherada”?
- Estou indo. Sempre que posso, pego uma. Pra não perder a prática né?
- Certo. Soube que você tinha casado e tinha até tido um filho.
- Boatos. Você sabe como é ... gente querendo acabar com a minha reputação.
- Então não casou?
Vitor se aproxima, apóia o braço no ombro do outro.
- Cá entre nós, eu casei, mas não espalha por aí não. Uma hora você tem que se aquietar e eu tive que arranjar alguém.
Carlos, se esquiva do abraço inconveniente.
- Entendi.
- E você? – Questiona Vitor.
- Eu vou muito bem obrigado.
- Casou?
- Não.
- E a Aninha, aquela esquisitona que andava com você? Pensei que fossem casar. Vocês até combinavam.
- Ficamos juntos por algum tempo.
- Você teve coragem de comer ela? Cara que gosto hein? – Exclama Vitor.
- O que você tem contra a Ana? Ela é uma mulher maravilhosa.
- Mas era feia.
- Era o que você achava. Não se engane com as aparências, meu caro.
- Não vai dizer que ela era boa de cama? Duvido!
- Sem comentários. Há mais coisas entre o céu e a terra, do que possa supor sua vã filosofia.
- Sério?
- Sim.
- E que fim levou ela?
- Ficamos juntos algum tempo. Até concluímos o mestrado juntos, porém uma hora o amor acabou e ficamos amigos.
- Hum.
- Ela foi pra Marrocos. Acabou casando com um xeique.
- P%$# q@# p@#$%. Que sortuda!
- Sim.
- Mas e aí? O que você faz da vida, o que anda fazendo pra sobreviver? Ainda estudando muito? Você tem jeito que deve trabalhar pra caramba. Deixa eu adivinhar, tá de folga hoje, por isso tá todo largado?
- Já não estudo tanto. Essa época já passou Vitor. Eu sou doutor agora.
- Médico?
- Não. Doutor em tecnologia da informação.
- Tá aí! Gostei.
- E você?
- Virei advogado. Tenho um pequeno escritório.
- Fico feliz por você. Eu tenho três empresas, uma no Rio, outra em São Paulo e uma em Manaus. Não estou de folga, vim apenas comprar um iate para uma viagem pelo mundo. Estou hospedado na minha casa de praia daqui, mas não devo demorar, a apesar das 6 suítes, da piscina e de ser de frente para o rio acho muito pequena a residência. Prefiro a de Búzios.
- Car@#$&.
Carlos sorri.
Uma mulher se aproxima do balcão do outro lado. Ruiva, cabelos curtos, olhos castanhos, corpo atraente. Linda.
- Meu irmão ... exclama Vitor todo animado.
- Que foi?
- Vira devagar pra sua esquerda. Dá uma olhada nesse avião que está encostado no balcão. Um espetáculo! Um monumento! Essa eu pegava e botava pra suar. Aí uma deusa dessas na minha mão.
Carlos vira para vê-la. Ela sorrir ao notar que ele está a observando. Dá um tchauzinho.
- Conhece? Pergunta Vitor.
- Sim.
- Sério?
- Sim. Conheço e muito bem. – Responde despretensioso.
- Deixa eu adivinhar... é da sua família?
- Sim.
- Pela aparência... pela pouca idade ... sua irmã?
- Não.
- É mesmo. Agora que me lembrei que você era filho único. Já sei! sua filha?
- Não.
- Uma amiga?
- Também não.
- Então de onde conhece a gostosa? - Questiona Vitor um tanto impaciente.
- É minha mulher.

A vida dá voltas e voltas e numa dessas quem está por baixo fica por cima.

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