21.8.09

O reencontro

Ele se aproximou.

- Oi.

Ela não deu à mínima. Concentrada na tela do notebook tentava rabiscar um novo livro, um novo texto, uma nova crônica, algo do gênero. Olhou o rio. Adorava trabalhar sentada naquela mesinha, daquele barzinho, em frente à cidade.

- Quando for pedir alguma coisa eu chamo. – Disse na tentativa de despachar o cara do seu lado.

Ele permaneceu ali. Parado.

- Agora não garçom.

Continuou ali.

- Certo, certo. Já entendi. Se estou ocupando a mesa, preciso consumir algo. Deixa eu pensar... Um sorvete de baunilha, flocos, ameixa e milho verde, tudo junto numa mesma taça.

Ele saiu. Voltou 5 minutos depois com o pedido. Colocou sobre a mesa. Ela agradeceu. Ele continuou ao lado.

- Depois eu pago.

Ele se afastou. Deu três passos. Parou. Voltou para a mesa onde estava ela. Puxou a cadeira a sua frente. Sentou. Ela ainda reclamou.

- Não pode sentar aí.

Ele sorriu da cena.

Ela o reconheceu. ‘O rapaz da corrida no parque’. Quis agarrar o notebook e sair correndo. Tudo bem ela não era uma atleta, mas nessas horas as pernas ganham um impulso extraordinário. Lembrou da tragicomédia do dia anterior. Quis fugir. Levantou.

- Não vai cair!

Entendeu aquilo como um desaforo. Voltou a se sentar. Não gostava de ser confrontada. Abriu o computador, voltou a digitar. O sorvete derretia na taça.

- Você sempre come tanto assim? Você vai ficar gorda.

Ele não tinha algo melhor para dizer? Tinha que chamá-la de gorda? Não há nada que atinja mais a auto-estima de uma mulher do que ser chamada de gorda. Ela permaneceu calada.

- Vai ver por isso a queda no parque, por causa do quilinhos.

Piorou a situação.Ela não disse uma única palavra. Ficou estática. Muda.

‘Grosso , troglodita, bárbaro, insensível’.Pensou.

Olhou de relance, mas ele era lindo. Logo não era mais grosso, troglodita, bárbaro e insensível. De cara adorou o sorriso dele. Tinha uma queda por sorrisos. Já dava a maior bandeira que gostou dele.

O anjinho surgiu no ombro direito , insinuou um: ‘Deve ser maior safado’. Ela deduziu que sim do contrário não estaria ali na sua frente tentando agradar.

O diabinho apareceu do outro e soltou um: ‘Vai em frente, agarra o cara’. Ela analisou melhor , realmente era o maior filé!

- Você é muda? É isso? Espera eu me lembro de você ter falado na última vez.

Ela rompeu o silêncio.

- Você sempre se passa por garçom, pra sentar-se à mesa dos outros?

- Gostei de você.

- É mesmo?

- Você podia ser menos defensiva. Eu não mordo.

- Mas ofende.

- Só porque te chamei de gorda?

- Tá se achando a última bolacha do pacote não é? Saiba que não é!

- Desculpa. Você não está gorda. Está sexy.

- Você não tem intimidade para falar esse tipo de coisa.

- Entenda como um elogio.

Silêncio. Algumas palavras na tela.

- Você é escritora?

- Arrisco.

- Você parece jornalista. Não é?

- Já fui.

- Sou economista. Afirmou ele.

- Odeio números.

- Eu os adoro.

- É casada? Tem noivo, namorado, filhos.

Ele estava querendo saber demais. Esforçava-se para saber um pouco mais dela. Estava encantando. Ela era diferente das outras mulheres. Sabia disso. Não era supérflua. Ela escrevia. Ele adorava números. Ela o achou insistente. Tentava não encará-lo, mas queria se perder nos seus beijos. Viajou na maionese.

- Entendi... é casada.

Voltou pra terra (depois de uma rápida viagem a lua). Ele a encarando-a. Se recompôs.

- Moro sozinha com meu cachorro.

- Eu adoro cachorros ! Gatos são individualistas.

De onde vieram os gatos? Nada a ver. Tentativa de manter o assunto talvez.

- Você sempre vem aqui?

- Sim.

- Sempre vai ao parque?

‘Porque ele tinha que se lembrar do parque!!!’ Pensou ela.

- Garçom! Um suco por favor!

Ele olhou para ela.

- Um sorvete?

- Não obrigada estou de regime.

- Gostei de você.

Sorriram. As defesas começaram a cair.

Uma mulher caminha na direção dos dois. Sorrindo. A desconhecida acena. Ela retribui timidamente e desconcertada. Ela a conhece. Ele sorrir. Meio segundo depois ..

- Bebê da mamãe!!!

Ela quis se enterrar.

Algumas mães sabem como acabar com um segundo encontro.


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