28.7.09

O ônibus

A vida é um eterno ir e vir de pessoas. De coincidências...

Não era a primeira vez que se encontravam. Ela o conhecia há muito tempo. Ele nunca notou a sua presença até o dia chuvoso no ônibus. Antiga paixonite dos tempos de escola. Ele o ‘cobiçado’, ela somente mais uma ‘garota sem graça’.

Ela sabia seu nome, onde morava, quem era sua mãe, o que gostava de fazer. Tinha informações que talvez nenhuma outra pessoa tivesse. Ele adorava ruivas . Tinha namorado duas. A última deixou um rasgo no seu coração. Ele a pegou na cama com outro. Tocou a vida .Passou a não acreditar nas mulheres, apesar de ter muitas aos seus pés. Aproveitava a sua beleza ébana para seduzir e depois cair fora. Mulheres eram mentirosas. Desprovidas de sentimentos e nunca mais iria se apaixonar. Nunca!

Ela era sonhadora, apesar de também ter se decepcionado deveras no campo amoroso. O namorado a trocou por outra. Feia, diga-se de passagem. Nem por isso se desiludiu. Preferiu dar um tempo para o coração. Dedicou-se a outras coisas, aos pequenos detalhes, aos livros. Um dia ainda encontraria um pé torto para o seu chinelo.

Dia chuvoso. Ônibus molhado. Poucos lugares. Espaço vazio ao lado dele. Coincidência? Bom ela sempre o observava, mas nunca havia passado disso.

Ela pediu licença para chegar ao assento do lado da janela (ele estava no banco do lado do corredor). Ele se afastou. Desajeitada ela se acomodou. Pelo menos dessa vez ela não pisou no pé de ninguém (ainda bem!).

Pensou em pegar o livro na mochila a tiracolo verde fluorescente. Desisti. As gotas de chuva na janela ameaçaram molhar as páginas do seu Best Seller preferido. Colocou as mãos sobre o colo. Pegou o celular. Ia ouvir alguma música. Não tinha clima. Guardou novamente.

Ele, atento aos seus movimentos.

- Não vai ler hoje?

Ela levou um susto. Pegava o mesmo ônibus com ele todos os dias e ele nunca lhe mencionará uma única palavra.

- Não.

- Poxa que pena.

Ela não entendeu nada.

Ele percebeu.

- Você gosta de ler. Toda vez que te vejo você está lendo.

- Sim. É meu passatempo.

- Você gosta.

- Eu não. Não tenho paciência.

Quanta franqueza.

Passaram a se encontrar no mesmo ônibus todos os dias. Quando não se viam trocavam beijos na calçada da casa dela, na esquina, em frente à faculdade. A paixão durou dois meses, até que ela descobriu que ele não era o homem da sua vida e que nem sempre valia a pena reviver antigos lances.

Agora viaja sozinha no ônibus.

Ele comprou um carro.


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