14.7.10

Vinho

Falaram de amor. Um gole. Mas um drink. Antigos relacionamentos num primeiro encontro? Não era uma boa, mas o assunto veio à tona. Ela sorriu. “Que sorriso encantador” - pensou ele. Ela gostou do perfume dele. Era gentil, diferente da maioria dos homens que conheceu. Gostou dele. E ele dela. Sorrisos. Faltaram as palavras. Ele se aproximou. Tentou dar um beijo. Ela baixou a cabeça. Sorriu sem graça. Ele ficou mais errado ainda. Não entendeu nada.

– Fui precipitado?


Ela desconversou. No fundo não estava preparada. Tinha medo de se envolver, de se machucar de novo (era pior ficar sozinha). Ela puxou a cadeira para mais perto dele. Ele fez que não percebeu. Ela pousou a mão no ombro dele, que entendeu o gesto e deu um beijo suave. Ela o abraçou em seguida. Sorriram. Quando as frases ficam desconexas o sorriso desponta como uma interpretação muda e precisa. Ele passou a mão pelos cabelos dela. Macios. Beijou suas mãozinhas. Ela ficou um pouco mais solta. ‘Acho que ele é de confiança’- pensou.


Falaram sobre trabalho. Descobriram que gostavam do mesmo filme (coincidência?). Ele contou sobre as viagens, Bali, Buenos Aires, Paris, Amsterdã. Ela falou dos projetos para aquele ano. De Bob (o cachorro de estimação). Do gato do vizinho. “Porque falei do gato do vizinho?” – se perguntou. Dois segundos depois percebeu porque (estava falando do seu cão que levou ao felino que vivia a contrariá-lo). Ele afirmou que não gostava de gatos. Tinha um peixinho de estimação. Ela contou que cultivava flores e cactos na janela. Ele tinha um vasinho do lado do computador, coisa de mãe quando visita o apartamento de filho solteiro. Ela perguntou se ele morava sozinho. Ele confirmou. Ela sorriu. Mais um gole no drink. Beijos. Abraços. Mãos dadas. Olhos nos olhos.

- Estou indo rápido demais ou você é uma mulher sensacional?

Ela não soube o que responder. Ficou sem respostas. Ele, confuso por um momento. Ela preferiu aceitar que deveriam aproveitar aquele instante. Disse isso para ele, que concordou. Ela olhou ao redor. O bar/restaurante estava começando a ficar vazio. Sobre o balcão duas taças vazias, três copos com uma rodela de limão no fundo (um pela metade), uma garrafa de água, um prato com alguns petiscos. Ele olhou o relógio. Tarde. Quase duas da manhã. Ficaria sonolenta pela manhã, afinal era terça-feira.

- Vamos sair daqui?

Dúvidas. Cinco segundos. Sorriu. Ele entendeu. Pelo menos não era uma cara feia. Ela tinha aprovado a proposta. Ela pegou a bolsa. Ele pagou a conta. Ela saiu na frente. Ele avaliou a figura no vestido caramelo. “-Linda”. Ela seguiria o seu carro. Não morava longe. Preferiram ir para o apartamento dele (o Bob poderia estranhá-lo). Cinco minutos depois. Ele segurou na sua mão ao passar pela portaria. Beijaram-se no elevador. Ele abriu a porta. Num ímpeto entre lábios e abraços a levou para dentro. Ela pediu calma. Ele desculpou-se.

- Apenas uma taça de vinho.

- Ok. Tudo bem. Você que manda.

(Será?)

...

Ela acordou deitada ao lado dele ... de conchinha. Apenas uma taça de vinho...

Heverton Pablo (br.olhares.com)

Vieram outras taças e foi assim até quando durou.

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