As letras, o moço e o prazer
Moço,
Desculpe se agora não estou
aconchegada nos teus braços é que te olhando assim, um tanto suado e com essa
feição relaxada, a inspiração chegou de repente. Algumas vezes ela surge do
nada e vai se tornando tão intensa que é quase impossível domá-la. Estou agora
diante do seu notebook, e espero que não se chateie por ter aberto um arquivo
no Word. Lá fora o sol se despede no horizonte e vejo essa cena através da
cortina entreaberta do apartamento. Sentada aqui, seminua, somente com um
lençol a cobrir meu ventre, diria que sou uma imagem digna de uma crônica, mas
a questão neste momento é você e não eu.
Sei que não faz nem uma hora
que nosso último ato terminou, porém algo começa a revolver dentro de mim, na
parte do meu eu que rapidamente se aquece a qualquer contato seu. Parece
loucura eu sei, só que você despertou um dragão insaciável que morava na pele
do cordeiro. Ao observar teus cabelos negros desgrenhados, eu revejo as cenas
de minutos atrás, quando enveredei meus dedos por eles, num ímpeto louco
enquanto cavalgava sobre você. Nem parei diante do espelho, mas sei que muito
provavelmente tua boca alucinada deixou marcas sobre mim.
A vontade agora é de deixar
as palavras de lado e percorrer com a língua seu corpo, descer a partir da tua nuca,
o meio da tua costa e te virar no momento exato em que chegar aos teus quadris.
Subir, roçar os meus lábios nos teus, deslizar pelo seu peito até a parte que
me interessa e me completa, como uma peça num quebra-cabeças. Muito
provavelmente você despertaria com aquele sorriso entreaberto, um tanto safado
e duvido que resistisse ao convite para o nosso terceiro round. Agora não tenho
como não dar aquele riso baixo, por estar te admirando com pensamentos tão
lascivos.
Em pensar que quando nos
conhecemos naquela festa quase ao molde da música do Legião Urbana, (estranha e
com gente esquisita) muito provavelmente não teríamos imaginado vivenciar
tantas loucuras assim. Quando você se aproximou próximo ao balcão, com aquela
pergunta furada ‘se a cerveja estava gelada’, mesmo que ela não estivesse,
certamente a que eu trazia na mão momentaneamente teria congelado, tamanho o
nervoso que fiquei ao me deparar com você. Eu tenho uma queda por sorrisos e
você, bom, você tem um daqueles que arrebatam e me desconcertam. Na verdade nem
sei como saiu aquele ‘prove você’ quando te ofereci a minha garrafa. Você tomou
um gole, ensaiou uma partida, deu meia volta e parou no mesmo lugar e ficou
claro que tudo até ali havia sido ensaiado. Mas, gostei da abordagem, foi bem
melhor do que ‘gata você está sozinha?’. Você falou da música e ficou evidente
que estávamos perdidos ali numa festa cheias de Barbies e amantes de Whey
Protein. Da sala para o jardim, as borboletas no meu estômago acho que morreram
sufocadas pela cevada. Falamos do que mesmo? Não consigo mais me recordar
agora, acho que porque preferi selecionar na memória apenas aquela parte em que
você me empurrou contra o carro e me beijou. E o que dizer dos vidros embaçados
e do ímpeto louco no banco de trás? Garanto que bem mais animado que a dança no
interior da casa.

E moço, não sou de fazer
planos, prefiro o imprevisível, o inesperado, mas o que acha da nossa próxima
transa ser dentro de um elevador ou você prefere na praia? Não precisamos
seguir um padrão, só precisamos ser feliz e autênticos num cotidiano às vezes
tão sem graça. Talvez também, pensando bem... eu te faça um striptease. Sim,
essa seria uma ótima oportunidade para tirar aquela lingerie vermelha de renda
do armário. Você prefere West Coast da Lana Del Rey ou Love And Peace or Else
do U2, para acompanhar o embalo dos meus quadris? E não, não vou te prender com
algemas o outras coisas na cama, acho que nossos braços, abraços e entrelaçar
de pernas cai bem melhor.
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