16.6.09

O que o homem sente ... quando leva um fora

Por Samir Mesquita


Você é não. Você não é tudo pra mim. Não é minha única causa nem minha única guerra. Seu nome não é o título da minha história. E meu silêncio não é propriedade exclusiva sua. Você não é meu único Carnaval. E não são apenas seus defeitos que me irritam. Não sou monoteísta para adorar uma única deusa. E não imagine que sua mão estaria sozinha para me socorrer. Meu vocabulário não se limita a seus adjetivos – existem mais sete maravilhas no mundo além de você. Não são só suas sardas que tenho para contar. Você não é minha única adrenalina. E nem todos os componentes do meu Prozac. Você não é cada centímetro quadrado do meu chão. O amanhã acontecerá com ou sem você. Meu interesse não é restrito a suas polêmicas. Não só suas piadas me fazem rir. E seus ouvidos não são os cúmplices de todas as minhas confissões. Você é só uma das minhas vozes. Minha conta telefônica não vem obsessivamente com o seu número e no meu iPod existem 6 784 músicas além da nossa. Quando olho para o meu umbigo, não é você que vejo. Sua tristeza não é a única que me comove. E as pernas que me sustentam não são você. Não sou teleguiado, conheço muitos outros endereços além do seu apartamento. Seria prepotência achar que meus pensamentos são monopólio seu, você é só um dos sótãos em que me escondo. Você não é meu único álibi. Existem outras pessoas das quais também espero perdão. Você não é um compromisso onipresente na minha agenda. Outros elementos também compõem minhas fotos. Você sozinha não mata minha fome. E não sejamos hipócritas: há outras peles que me excitam e outros perfumes no ar além do seu. Você não é a única com 36,5 ºC. E não é apenas seu corpo que pode abrigar meu sexo. Você não é meu único vício.

E por não ser tudo isso, por ser uma entre tantas alternativas, você é meu não a todas as outras. Você é a escolha. Aquela a quem sou devoto não por dever ou coerção. Meu sim a você é um exercício de livre-arbítrio praticado segundo a segundo. Sim a um contrato sentimental que nada distingue, separa, sobrepõe ou submete. Sim a uma política de boa convivência sem falsidades e sob todos os esforços. Sim àquela que me desperta a curiosidade de um aprendiz e faz de mim um embrião a multiplicar e ser, a cada dia, uma nova pessoa e também a mesma. Sim a quem, quando me vejo na velhice, ainda espero ter para conversar. Um sentimento que existe não por dependência e nunca usado como moeda de troca. Peça fundamental no equilíbrio do meu caos.

Você é aquela por quem me arrisco a cruzar todos os limites da comodidade para tentar ser melhor. Você é aquilo que me falta dia a dia, que desejo e persigo. Obra em aberto que me inquieta e me encanta. Mas hoje você é não. Essas três letras saídas da sua boca que ecoam em mim. E me dilaceram. Palavra que outras vezes já ouvi e só provou que sou capaz de sofrer mais, como também de um amor ainda maior. Negativa à qual, a partir de agora, você se resume pra mim. Porque, se você é não, eu sou sim ao que me espera.

SAMIR MESQUITA É PUBLICITÁRIO E ESCRITOR, AUTOR DE LIVROS EM FORMATOS INUSITADOS, COMO DOIS PALITOS, QUE VEM DENTRO DE UMA CAIXA DE FÓSFORO, E 18:30, OBRA IMPRESSA SOBRE UM MAPA DE TRÂNSITO


Publicado no Especial Dia dos Namorados da Revista Claudia

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