30.6.09

Dois



Ele respirou fundo.

Sorriu da coincidência. Era a segunda vez que se esbarravam. Isso dois dias depois de terem se encontrado pela primeira vez numa festa cafona. Era uma segunda-feira. Dia dois do mês dois. E agora estavam ambos presos no elevador. Parado no segundo andar.

A luz piscou. No movimento brusco ela tentou se agarrar em algo. Encontrou braços que lhe ampararam. Ficou desconcertada. Sem graça. Desculpou-se. Ele respondeu com um ‘que nada’. Sentiu que o vestido estava frouxo demais, descobriu que a alça tinha arrebentado. Ficou de costas para ele. Não queria que ele visse aquela cena. Dois minutos depois sentiu uma respiração ofegante, sabe daquelas em que há o prenúncio de que tem alguma coisa errada. Encontrou-o puxando a gola da camisa. Estava começando a suar. No olhar uma expressão de desespero. Claustrofóbico. Tinha que agir rápido.

Soltou um ‘está tudo bem?’. Ela sabia que não estava. Pergunta tola para se fazer num momento como aquele. Ele se sentia ridículo. Queria subir pelas paredes. Queria ter as unhas do Wolverine para cortar aquela caixa de metal e fugir dali, do olhar dela. Aquele olhar que parecia enxergar o fundo da alma. Ficou calado. Não deu uma resposta.

Ela se aproximou. Esqueceu da alça do vestido. Largou a bolsa no chão. Chegou mais perto. Segurou nas mãos dele que tentavam arrancar a gravata. Ela desatou tranquilamente o nó, e ainda os dois primeiros botões. Secou o suor que escorria pela testa dele. Ele pensou que estava sonhando. Desmoronou. Ficou ali jogado no canto do elevador. Ela abaixou-se também. Pegou um lenço na bolsa e começou a abaná-lo. Dois minutos depois estava mais calmo. Pôde até prestar atenção nos detalhes da figura na sua frente. No sorriso. Nos lábios. Nos olhos castanhos. No nariz. Na pele macia. Nos cabelos desgrenhados. Ela era linda. Deixou escapar ‘um anjo’. Ela pensou que ele estava delirando. Ficou preocupada. Tentou o celular, estava fora da área de cobertura. Fez menção de que iria se afastar. Ele segurou em seu braço. Puxou para junto do seu peito. Ela ficou com medo. Não resistiu ao abraço. Era bom. Sentiu o perfume. Ele era perfumado. Ela adorava homens perfumados. Achava-os irresistíveis.

2 comentários:

  1. olá carissima dani, pelo que vejo colocaste os comentarios em teu blog....
    gosto do seu estilo de escrita

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  2. Blogueira, belo texto !

    Ah, posta de vez em qdo uns poemas do Neruda, do Drummond, do Quintana...

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