6.3.09

A traição de Marcelo

Você já ouviu falar em Marcelo Rubens Paiva?

Bom até hoje de manhã não fazia a menor idéia de quem era até esbarrar com uma crônica dele no Estadão.

Estou namorando o texto dele desde que li.

Leio muitas coisas, muitos livros, mas confesso que preciso aprofundar mais minhas leituras no quesito escritores nacionais.

A última obra brasileira que passou pelas minhas mãos foi o livro do amazonense Milton Hautom.

Vamos voltar a falar do Marcelo.

Achei a crônica suscinta e envolvente daquelas que dá vontade de desfrutar de 'uma tacada só'.

Vai um trecho abaixo...

5:51. Ela abre os olhos devagar. Antes do despertador tocar. Está de lado, na cama. Observa o visor. Que acaba de mudar para:5:52. Escuta o silêncio da casa, da rua, da cidade. Um ar gelado envolve os seus braços. Ela os coloca debaixo do cobertor.
5:53. Escuta a respiração do marido. Dorme pesado. Mas não ronca. Ele sempre dorme pesado. Como ela inveja os que dormem pesado, os que se deixam e dormem antes dela, os que dormem na posição em que se deitam, não sentem frio ou calor, não reclamam do colchão mole ou duro.
5:54. Sempre, em toda a sua vida, desde que nasceu, ela dorme depois dos outros, dorme depois dos irmãos, dos primos e dos namorados. Tem dificuldades, deita-se e pensa, ainda durante um bom tempo, às vezes uma hora, às vezes mais, a insônia, a clássica insônia, é, ela demora, faz um balanço o dia, pensa nos amigos, nos planos. Nunca teve um cara que dormisse depois dela.
5:55. Em viagem, então... Pode atravessar o Atlântico ou o Pacífico de olhos abertos, lendo ou assistindo aos filmes, chega no destino exausta e, na primeira noite, estranha tudo, o cheiro do quarto de hotel, o colchão, especialmente o travesseiro alto demais, a cama mais fria e impessoal, os ruídos do quarto, o frigobar que range, a água ou óleo que escorrem na calefação, estranha os ruídos da rua, da cidade, do país, da novidade, e não dorme.
5:56. Nunca tomou remédios para dormir: tem medo de se viciar. Costuma-se viciar em remédios. Em antiinflamatório, quando teve uma bursite, experimentou todos eles, até o Vioxx, que foi tirado do mercado. É viciada em analgésicos para cólicas. Buscopan, o seu preferido. Em pingar gotas no nariz. Em colírio, na época que era “a” maconheira da faculdade. Por isso, nunca teve coragem de tomar remédio para dormir, pois sabe que corre o risco de ficar para o resto da vida dependente de mais um, um mais barra pesada até, tarja preta, daqueles que se obtêm com receita, e ela ficar para o resto da vida dependente de um médico que lhe dê receitas, todos os meses, teria de comprar estoques nas férias dele, teria de levar caixas nas suas férias, nas viagens em que ela cruzaria o Atlântico ou Pacífico.

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