29.3.09

‘Garapa’: três retratos da fome

O novo filme do diretor José Padilha (de "Tropa de elite") traz três mulheres que lideram famílias em situação de miséria, passam fome e fazem de tudo para conseguir alimentar os (muitos) filhos pelo menos uma vez ao dia. Em "Garapa", o cineasta acompanha o dia-a-dia de três famílias cearenses – uma que vive numa cidade grande, outra que mora perto de uma cidade pequena, e a última que se instalou no meio do nada – todas em situação de fome crônica.

O documentário faz parte de um compromisso assumido por Padilha e seu parceiro, o produtor e também cineasta Marcos Prado, de produzir filmes sobre dois assuntos que consideravam sérios: a fome e escassez de água. "Garapa" abre a série, entregando ao público uma colagem de imagens e histórias tão chocantes quanto deprimentes, sobre uma população que grande parte das pessoas só conhece dos números divulgados pela Organização das Nações Unidas – e já são mais de 920 milhões passando fome em todo o mundo.

"Esse filme tem um desafio, porque ele mostra algo que as pessoas não querem ver. Por definição, estou pedindo para as pessoas assistirem a um filme que não vão gostar de ver. Mesmo assim, gostaria muito que ele fosse visto pelo maior número de pessoas possível e que pudesse ter um efeito sobre suas vidas", afirma o diretor.

Feito em preto-e-branco (colorido seria intolerável), da forma mais simples e crua possível, até mesmo sem trilha sonora, o documentário escancara a situação de pobreza, falta de higiene e fome em que muitas famílias brasileiras vivem diariamente.

Ao mesmo tempo, como é tradicional nos filmes de Padilha, seu talento em retratar a realidade não cai na emboscada da piedade nem de tratar o protagonista como vítima. Há reflexão, não moralismo. Na mesma medida em que o cineasta aponta sua câmera para os problemas enfrentados por essas pessoas, retrata também como algumas delas se acomodam no desemprego e na miséria, acostumando-se a comer pouco e mal, a ter doenças não tratadas, a viver sem infra-estrutura alguma e mesmo assim a continuar tendo filhos e esperando pelo que "Deus dá". (G1)

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