9.3.09

‘A água bateu na janela’ (Sobre desabrigados)

A reportagem que segue foi publicada por mim nesta segunda-feira (9) na manchete do Portal Notapajós.com. Ontem tive conhecimento que alguns moradores estavam abrigados no Salão Comunitário do bairro do Aeroporto Velho, como já era tarde não fui até o espaço. Pela manhã quando a chuvinha fina caia na cidade eu acompanhei a equipe de reportagem até onde estavam as famílias... O que segue foi o que ouvi e descrevi em palavras.

Era para ser só mais um dia chuvoso e de muita lama na rua, mas não foi. Moradores da parte baixa do Aeroporto Velho tiveram que deixar suas casas às pressas na última sexta-feira (6).

No Salão Comunitário do bairro, seis famílias agora dividem o mesmo espaço. Todas elas moravam até poucos dias na Rua Magnólia, numa das partes mais precárias do Aeroporto Velho. Na semana passada a chuva forte obrigou os moradores a deixarem suas residências, antes que algo pior acontecesse.

O drama começou por volta das 10h00 quando a enxurrada transformou a rua num ‘rio de lama’. Logo, um quarteirão inteiro estava ‘no fundo’.

Bernadete Cruz dos Santos, preparava o almoço daquele dia quando ouviu o grito dos filhos.

“Eles começaram a gritar que a casa tinha rachado no meio. Quando eu vi a sala estava rachada de uma ponta a outra. Nós fomos pra cozinha e ficamos encolhidos num canto. Eu entrei em desespero e comecei a chorar, foi aí que os bombeiros apareceram e tiraram a gente de lá.” Contou.

Outra que viveu momentos de pânico foi Terezinha Figueira Mota. Ela teve que agir rápido quando a lama invadiu sua residência.

“Nós estávamos dentro de casa acompanhando a chuva quando o muro do lado desabou. A enxurrada invadiu o terreno. A água bateu na janela e logo tomou conta da casa. Peguei meus 3 filhos e mandei que eles corressem para o quintal. A mais velha, de 6 anos pegou a caçula de 1 ano e caminhou com a lama batendo quase na cintura dela. Ela ficou parada no meio do terreno esperando ajuda. Se eles ficassem dentro de casa iam morrer afogados.” Falou.

Apesar de estarem acostumados com os transtornos, muitos moradores ficaram assustados com a última chuva.

“Toda vez quando chovia a minha casa ia pro fundo. A água batia no meio do joelho. Quando vi a situação da rua ficando pior eu subi minhas coisas, mas não teve jeito, estragou minha comida que estava guardada. Minha maior preocupação mesmo é com as crianças.” Relatou a moradora Maria da Conceição Costa dos Santos.

O destino das famílias abrigadas no Salão Comunitário é incerto. Enquanto nada é resolvido 34 pessoas, sendo 16 delas crianças, tentam se adaptar a nova realidade.

A Defesa Civil têm prestado auxílio aos moradores que também contam com o apoio dos agentes comunitários de saúde.

Dos menores que estão no local, seis chegaram doentes com o quadro clínico de vômito, diarréia e micoses e estão recebendo tratamento.
Nos próximos dias o prefeito interino de Santarém José Maria Tapajós deve se manifestar sobre a situação dos moradores.

Na Rua Magnólia, outras 20 famílias se negaram a abandonar suas casas e a cada chuva correm o perigo de serem as próximas vítimas da enxurrada.


Das 16 crianças que estão no Salão Comunitário atualmente, 10 estavam no local no momento em que fui fazer a reportagem. Um garotinho não quis ser fotografado e como chorou muito o pai pegou ele nos braços. Preste atenção no olhar das crianças. É como se elas desafiassem a câmera ou será que no fundo não estavam questionando o porque de estarem naquele lugar?

Um comentário:

  1. O que eu desejo, do fundo da alma, ao ver essa imagem, é que essas crianças possam "figurar", no futuro, numa reportagem, numa bela história, não exibindo um “meio sorriso”, uma alegria morna - fruto da completa ausência (talvez nem tanto) apreensão da realidade que lhes cercam, aliado à sua natureza de criança, que consegue sorrir mesmo nas maiores adversidades -, mas dando um sorrisão enorme ao contarem uma conquista, ao exibirem um prêmio, ao divulgarem uma idéia concebida ou experiência bem-sucedida que tornou a vida dos seus semelhantes mais digna, mais humana e menos sofrida. Reportagens assim são necessárias. Cutuca a ferida e dá aos sem compaixão e insensíveis ao sofrimento alheio a chance de ao menos refletir(não se pode pedir muito dessa gente...) e lembrar-se que são da mesma espécie. Parabéns, Dannie! Imagem e texto complementaram-se.

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