18.1.09

O menino e o velho pescador

Imagem: Octavio Campos Salles


O menino corre descalço pelo chão de terra em meio a lama e o capim.
Nas mãos tenta equilibrar os dois litros d'agua.

Brinca com a realidade ou seria a realidade que brinca com ele?

Quase tropeça, mas olha pra trás e sorri.

Aos poucos a mãe vira um pontinho longe muito longe.

A lata na cabeça apenas um contorno.

Ele volta.

No caminho outros meninos o observam ...
desajeitados,
pequenos,
sujos,
descalços.

Um velho pescador também o acompanha.

Coça a cabeça.

Seu olhar perdido,
cansado,
distante.

Suas mãos calejadas, suas forças cada vez mais efêmeras.

Não têm mais a esperança do menino, aquele sentimento surreal às vezes utópico.
Não retribui o sorriso da criança, que mesmo assim insiste em lhe mostrar com ternura a longa fileira de dentes.
Duas visões,
duas pessoas
e um mesmo problema.

O menino sai em disparada e caminha ao lado da mãe.
Exausta.

O velho levanta do seu banquinho, abre a torneira e ouve apenas o barulho do vento nos canos.

Aniquilado recolhe o que lhe sobrou da sua dignidade e volta pra casa...



*** Dedico o texto a todos aqueles que sofrem com a falta d'agua. Felizmente não fui tomada pela inércia que se apoderou de muitas pessoas ...

Um comentário:

  1. problema antigo e suma solução que nunca chega, talvez nem seja tão dificil de resolver quanto se pensa, se houvesse interesse da parte dos governantes.
    Só podemos lamentar, e protestar, quem sabe alguém toma alguma iniciativa, indignado como todos.

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